
Gente...Leiam este livro.É muito bom.A história é um pouco triste,mas vale a pena.
Uma recordação:
Sabia que Hassan e você mamaram do mesmo leite?Sabia disso,Amir agha?Ela se chamava Sakina.Era uma linda hazara de olhos azuis,nascida em Bamiyan,e cantava para vocês velhas cantigas de casamento.Dizem que as pessoas que mamam do mesmo leite são irmãs.Sabia disso?
Uma recordação:
"Uma rupia por cabeça,crianças.Só uma rupia por cabeça,e abrirei para vocês as cortinas da verdade."O velho estava sentado junto a um muro de barro.Os seus olhos cegos eram como prata derretida encrustada em duas crateras profundas,idênticas.Curvado sobre a bengala,o vidente passa a mão nodosa por toda a superfície do rosto murcho.Estende para nós a mão em concha."Não é um preço muito alto pela verdade,é?Uma rúpia por cabeça."Hassan põe uma moeda naquela palma áspera.Eu ponho outra."Em nome de Allah,o mais clemente,o mais misericordioso",sussurra o velho adivinho.Pega primeiro a mão de Hassan e,com uma unha que mais parecia um osso,fica fazendo voltas e voltas,voltas e voltas na sua palma.O dedo se desloca então até o rosto de Hassan e,com um ruído seco e áspero,vai acompanhando lentamente o traçado das suas bochechas,o contorno das suas orelhas.As pontas calejadas daqueles dedos roçam os olhos de Hassan.A mão pára ali e se detém por um instante.Uma sombra percorre o rosto do cego.Hassan e eu nos entre olhamos.O velho pega a mão de Hassan e põe a rupia de volta em sua palma.Vira-se para mim."E você,meu jovem amigo?",pergunta.Do outro lado do muro,um galo canta.O velho pega minha mão,mas eu a retiro.
Um sonho:
Estou perdido em uma tempestade de neve.O vento assobia,atirando pedacinhos de gelo que espetam os meus olhos.Vou cambaleando,os pés afundando em camadas daquela brancura fofa.Grito por socorro,mas o vento não deixa que os meus gritos sejam ouvidos.Caio e fico ofegando na neve,perdido naquela imensidão branca,com o lamento do vento soando nos meus ouvidos.Vejo que a neve está apagando as minhas pegadas."Agora sou um fantasma",penso eu,"um fantasma sem pegadas".Volto a gritar,com a esperança sumindo como as marcas dos meus passos.Desta vez,porém,há uma resposta longínqua.Protejo os olhos com as mãos e dou um jeito de me sentar.Além das cortinas flutuantes de neve,tenho a breve visão de algo se movendo,um borrão de cor.Uma forma familiar se materializa.Uma mão se estende na minha direção.Vejo profundos talhos paralelos cortando a sua palma e o sangue escorrendo,tingindo a neve.Seguro aquela mão e,de repente,a neve desaparece.Estamos em um campo de relva verde-clara e macios flocos de nuvens deslizam no céu.Olho para cima e vejo o céu claro coalhado de pipas verdes,amarelas,vermelhas,laranja.Elas cintilam à luz do entardecer.
"O caçador de pipas" de Khaled Hosseini

